Ele é um talento. Não
por que seja apenas tecnicamente bom, mas ele é inspirador e mágico.
Ouso dizer que se
existir um céu, desses com anjinhos cantantes, eles certamente param para
ouvi-lo, tombando a cabeça para o lado e dando um leve suspiro ao final da
canção.
E num tempo de
efusividade coletiva, grunhidos e ritmos universitários ou analfabetos, ele vem
delicada e firmemente preenchendo a canção como se estivesse colorindo um
desenho em branco.
Acha que eu estou
exagerando? Ouça você mesmo/mesma e deixe de me dar razão se puder.
P.S.: Ele é o Renato Braz, cantor paulista, muito premiado e pouco divulgado.
Essa é para você, brasileiro que diz: "O brasileiro mimimi, blá, blá, blá." como se você fosse um cidadão de outro país, ou melhor, uma criatura de outro planeta. Mude o discurso, aproveite o argumento, fale agora: "O canadense costuma esfregar flores na cara dos outros" ou "O canadense costuma dar bengaladas quando esfregam flores na cara dele."
E aí que um belo dia você recebe uma solicitação de amizade
no facebook. Você dá aquela olhadinha, não conhece o cidadão pelo nome, não tem
foto de perfil, mas vê que ele é amigo de um amigo seu, que interagiu com ele
algumas vezes e aí, você adiciona, afinal de contas, rede social foi feita para
socializar.
Passados alguns dias, você conversa com o cidadão pelo
chatezinho do face, adiciona no MSN e a conversa flui por alguns dias. Que
legal, um novo amigo!
Então, em determinado momento, após umas três ou quatro
conversas você lê:
- Qual será o nome dos seus filhos?
Assustada, você responde:
- Que filhos, queridão? Eu não terei filhos!
O queridão, quase apertando o CAPS replica:
- Como assim você não terá filhos? O que é um casamento sem
filhos?
E a tréplica:
- Calma amigão, que casamento? Que filhos? Do que você está
falando?
Por fim, o xeque mate:
- Você é solteira, me aceita como amigo e quer dizer que não
está procurando um marido? Um pai para os seus filhos?
Completamente sem entender nada, você só responde:
- Claro que não! Rede social é para socializar, a caça são
outros quinhentos.
O queridão, já com o CAPS apertado, sem nada a perder lança:
- POIS BEM, PRAZER EM CONHECÊ-LA, MAS AMIGOS EU JÁ TENHO OS
MEUS E NÃO PRECISO DE MAIS. ESTOU EM BUSCA DA MULHER DA MINHA VIDA, DA MÃE DOS
MEUS FILHOS E EU SÓ TENHO 3 ANOS PARA ISSO, SOU UM HOMEM DE POSIÇÃO E QUERO
DESENROLAR LOGO, NÃO POSSO PERDER TEMPO COM GENTE QUE NÃO CRESCEU E SÓ QUER
BRINCAR NA INTERNET.
Nesse caso, sem ter o que dizer e sem a menor paciência de
bater palmas para louco dançar você responde:
Eu aprendi muitas coisas com meu pai. Aprendi a passar o
cadarço e amarrar o tênis, jogar paciência e freecel (com baralho mesmo, não no
computador), aprendi a gostar de ler, de boa música (sempre com fone de ouvido),
a mexer nos aparelhos eletrônicos e muitas coisas sobre o Rio de Janeiro.
Aprendi a dirigir em condições normais, na chuva, na neblina
e quando quebra o cabo da embreagem.
Aprendi que não gostar é um direito, mas tratar bem é um
dever e que não precisa viver perto de quem me faz mal, basta ignorar e seguir minha
vida com a postura correta que todo mundo me respeitaria de volta.
Aprendi também que todo o castigo para corno é pouco, que
corno deve pagar dobrado e que mesmo sendo tudo puta, viado, corno ou drogado,
a opção sexual, cor, religião ou dinheiro, não significam nada, por que o que
vale de verdade é o caráter e este independe de tudo isso.
Aprendi ainda que não se deve importunar as pessoas nas
tardes de domingo, porque é o momento do cochilo semanal de quem trabalha a
semana inteira.
Com o meu pai aprendi muitas coisas mais, tanto que nem cabe
aqui nem em lugar nenhum, só não aprendi que nunca mais eu vou ver a novela das
oito com ele.
Todo mundo já fez algo de que tenha se
envergonhado, todo mundo já fez um trabalho mais ou menos, todo mundo gosta de
algo ruim e todo artista bom já gravou porcaria.
Taí um cara que já gravou muita porcaria, mas que
no CD Ensaio de Escola de Samba se redimiu e arrasou, principalmente com essa
canção do Sérgio Mendes. Embora falte divulgação, Leandro Lehart fez um
belíssimo trabalho, muito bem cuidado em todas as etapas desde a escolha do
repertório incluindo sambas-enredo das escolas de samba paulistas até a
pós-produção e, o que é melhor, disponibiliza de graça para quem quiser baixar
o álbum no www.leandrolehart.com.bre o próprio ouvinte estabelece o quanto vale a obra e
contribui, se quiser.
Para quem já passou da fase do preconceito musical
e gosta de música brasileira, eu acho bom e você?
Minha mãe: Hoje eu vi uma moça no programa
da Kátia (Fonseca) que cantava tão bonito, depois procura na internet que você
vai gostar.
Eu: (com os meus botões) xi, lá vem
bomba...
[Minha mãe tem um gosto musical bem,
digamos, duvidoso. Mas, quase todas as vezes que ela me sugeriu algo eu gostei,
como quando ela me mandou ouvir uma fita da Maria Bethânia, abelha rainha, eu
devia ter uns seis anos e me apaixonei . Assim, resolvi dar um voto de
confiança.]
-
Qual o nome da cantora, mãe?
Minha mãe: Ah, e agora que eu não lembro?
Eu: E como eu vou procurar?
Minha mãe: ... o sobrenome dela é o mesmo
daquele amigo do papai que tinha o ganso e aquele carrão que não passava na
garagem...
Eu: ... loading
... loading
Desisto, vou ligar e perguntar direto para
o meu pai:
-
Pipe, como é o nome daquele seu amigo que tinha o ganso que acabou com o banco
do carro que não passava na garagem?
Meu Pai: Cozza.
BINGO
Eu: ô mãe, meu pai falou que o nome do
cidadão é Cozza.
Minha mãe: É, isso mesmo, o nome da moça é
alguma coisa Cozza
Lá vou eu ao google, santo google e me
vem:
Tenho que admitir, dessa vez, minha mãe
acertou. Fabiana Cozza, além de ter um timbre lindo é classuda, cheia de estilo
e muito original, talvez por isso, não figure entre as revelações da música
brasileiras e, sinceramente, eu acho até bom, porque as revelações que vemos
por aí dão uma preguiça...
Qualquer relacionamento se rompe,
namoro, noivado, casamento, sociedade e, pasmem, amizade também. Na maioria das
vezes a amizade não é rompida bruscamente, o tempo, as atribuições do cotidiano,
as mudanças de interesse, a entrada de uma terceira pessoa na história, enfim,
tudo isso vai afastando os amigos, colocando o sentimento numa espécie de stand
by, pronto para ser retomado assim que os caminhos voltarem a se cruzar.
Entretanto, existem casos em que é
necessário romper uma amizade antes mesmo que os laços se afrouxem ou que o
sentimento esfrie. É uma questão de sobrevivência, sua e do outro, acontece
geralmente quando há uma dependência muito grande, ou quando a trilha de uma
das pessoas muda e a da outra permanece a mesma. Quem ficou geralmente não cabe
mais na vida de quem foi, pelo menos, não no mesmo lugar que não cabia antes e
caber mal numa vida que cabe tão bem na sua é tão ruim que é melhor nem caber.
E assim as amizades se resfriam até se
desmancharem, um não cabendo muito bem na vida do outro, resolve que é melhor
ficar de longe, só observar, deixar o amigo crescer, ganhar o mundo, ganhar os
outros. Eis uma sábia e amadurecida decisão que infelizmente não tem o poder de
aplacar o sentir falta.